* Sobre os motins em Londres
sábado, 13 de agosto de 2011
sexta-feira, 1 de julho de 2011
quinta-feira, 23 de junho de 2011
domingo, 5 de junho de 2011
domingo, 22 de maio de 2011
domingo, 15 de maio de 2011
terça-feira, 3 de maio de 2011
sábado, 30 de abril de 2011
sexta-feira, 22 de abril de 2011
quinta-feira, 7 de abril de 2011
domingo, 3 de abril de 2011
quinta-feira, 31 de março de 2011
sábado, 26 de março de 2011
segunda-feira, 14 de março de 2011
sábado, 12 de março de 2011
segunda-feira, 7 de fevereiro de 2011
domingo, 23 de janeiro de 2011
segunda-feira, 17 de janeiro de 2011
quinta-feira, 13 de janeiro de 2011
quarta-feira, 10 de novembro de 2010
domingo, 7 de novembro de 2010
quinta-feira, 5 de agosto de 2010
Hoje...
... decidi publicar mais um "Hoje" para criar um ambiente de expectativa sobre um blogue que reticentemente julga ter mais alguma coisa para dizer.... provavelmente amanhã.
terça-feira, 13 de julho de 2010
terça-feira, 25 de maio de 2010
quinta-feira, 6 de maio de 2010
quarta-feira, 10 de março de 2010
Ontem...
… ficaram-nos, por fim, as palavras escritas por Samuel Beckett, dando voz ao corpo da presente época futebolística do FCP:
“Morria hoje mesmo, se quisesse, bastava fazer um bocadinho de força, se fosse capaz de querer, se fosse capaz de fazer força. Mas mais vale deixar-me morrer, sem apressar as coisas.”
Agora vou tirar coelhos da cartola… e comer bolachas… com uma mantinha pelos joelhos.
quarta-feira, 24 de fevereiro de 2010
O facilitador
"Estou sim? Professor Saturno? Daqui fala o Fernando Jorge… sim, sim... e como está o professor? Muito bem, muito bem, e a sua criatura? Completamente recuperada do atropelamento? É uma marmota, não é? … Uma cadela Yorkshire?! É isso, não ligue; o professor já sabe desta minha tendência para confundir tudo com marmotas… hahahaha… as mulheres não, professor, a essas distingo bem por causa do guincho engraçado que fazem quando se esvaziam… isso mesmo, hahahaha. Mas mudando de assunto, a esposa como vai?... Pois bem, tem de ser; é também para isso que servem as arcas frigoríficas, hahahaha. Mas olhe, ouvi dizer que vai para a semana à França… boa... excelente... eu também as prefiro à beira da estrada, mas realmente já quase não se vêem por cá… Diz que sim, que tudo aquilo lá é outra coisa… Na nacional trois para Château Thierry? Não conheço. Sei que na zona de Bordéus há bons pinhais para a prática, e de bons preços, tendo em conta que é material de primeira… Não senhor, ainda na semana passada o Vertumno me disse que lá passou e que não teve qualquer problema com javalis. Olhe que até teve a sorte da madame lhe oferecer um copinho de uma espécie de Château Latour, para brindar… isso mesmo!... Veja lá!… Mas então quando é que regressa? Perfeito! Vem ainda a tempo do nosso encontro semanal. Desta feita vamos enfardar carneiros e arroz de cabidela… arroz de cabidela, sim. Será que o vamos ter em grande forma? … Hahahaha, o professor não me leve a mal, mas da última vez não lhe correu muito bem… fraquinho, isso mesmo. Vomitou duas ou três vezes se tanto, o que nos deixou surpreendidos, pois claro. Não fosse ter-se urinado todo quando estávamos a lamber a moça nordestina untada com chantilly e trufas de chocolate e teríamos ficado muito preocupados. Veja lá que nem se lembrou de roubar a garrafinha de malte… hahahaha, é da praxe sim senhor. Desta vez leva duas, uma em cada sovaco… sim, não há problema… com certeza, mas tem de dar uma apitadela para o irmos buscar… Vai o carro de serviço com chauffeur… não se preocupe, é o do costume… sim, o pobre do Morais... sempre servem as concelhias, sim. Ele depois leva os restos para o cão e talvez um bocadinho de moça, depois do chantilly… hahahaha, é isso mesmo - se sobrar! … Diga?! ... A seguir é como sempre, avise lá que chega tarde. Está tudo combinado. Temos já apalavrados dois moços africanos e uma adolescente búlgara… Não, infelizmente para esta data já não foi possível encontrar núbios no mercado. Tudo reservado… sim. O mesmo se passa com o Galgo Polonês. Também tentámos, mas só disponibilizam naqueles pacotes gourmet… sim, dois galgos e uma adolescente da Eritreia, mas também já estava esgotado... É uma pena, bem sabemos que o professor admira, mas desta vez vamos ter que desenrascar com dois rapazes da Costa da Caparica. Se lhe serve de consolo, olhe que me garantiram sucesso e quem foi conhece o mercado como ninguém… A ver vamos então… O guião? Vai ter de ser o Sileno outra vez… Eu sei professor, mas o que quer que faça? É o único tipo da área criativa que temos… sim, é vogal daquela multinacional de projectos e consultadoria… tem toda a razão, mas nós já lhe fizemos sentir isso… De qualquer modo fica assim: eu próprio lhe dou uma apitadela e digo que o professor desta vez não quer uma fantasia com agentes desportivos… Ah, não quer que eu refira o seu nome… entendo… deixe estar, eu resolvo, vou dizer que foram instruções dadas por uma voz do além… Resulta pois, o Sileno é muito religioso... sim, o pior de todos. Se quer vê-lo é na Estrela, ao domingo de manhã, junto à basílica, com os sete filhos e a gorda da esposa… hahahaha… já emborrachado… hahahaha. Mas olhe, estou aqui a pensar; o que se calhar fazia falta, para tornar a coisa mais credível, era dizer que a voz tinha proposto qualquer coisa… pois, eu também acho que é habitual neste tipo de vozes. Talvez se lhe ocorrer a si alguma coisa… ele depois desenvolve… veja lá o professor… não faz mal, o que for… O quê? Uma coisa passada num colégio interno? Fabuloso! Sou obrigado a sublinhar que o professor é reconhecidamente um grande fantasista. Que bela ideia! Vou então falar com o gajo, nos diálogos o tipo sempre safa a coisa… nem mais, estou seguro que desta vez o serão será inesquecível… Combinado… Combinadíssimo professor… sim, mas olhe, já agora aproveitava para lhe dizer que estou a ligar por causa do chefe… está-me a ouvir? …Sim, eu envio o seu abraço… Pois tem razão, as coisas não têm corrido pelo melhor… Ora bem, mas é precisamente por isso que lhe falo. É urgente inverter o estado de coisas… pensámos no professor; que pudesse dar uma palavrinha ao outro… sim, a ideia é começar por comprar duzentas e cinquenta de fiambre… duzentas e cinquenta… de fiambre… pois. Entretanto o Acetes vai tratar de sondar junto do assessor daquele que o professor sabe, se há possibilidade de adquirir no mercado, sem grande sobressalto, meio queijo flamengo… isso… evidentemente… a ideia é controlar a possibilidade de fazer sandes mistas… um sonho antigo, pois claro, mas o chefe está determinadíssimo. Sabe o quanto lhe falta a paciência para os resistentes e já agora, digo eu, também se pretende um cheirinho de vendetta … por causa do outro gabiru… sabe como é… o chefe… sim, nada demasiado pornográfico por agora… com certeza professor, com certeza, temos de ser uns para os outros… então digo ao chefe que podemos contar consigo? Muito bem, fantástico! Temos a outra rapaziada em alerta para conter os danos… pois, o chefe conta que alguma coisa possa transpirar. Como o professor sempre disse, há muitos interesses insondáveis no sector da sandes mista… pois é, recordo-me bem, tenho-as aqui junto ao coração, são palavras que alumiam o caminho dos audazes… as suas professor, as suas… Fico então descansado, a sua colaboração é impagável mas estou certo que o chefe recomendará aos deuses a justa compensação do seu valor.
Já agora e antes de desligar, recordo-lhe a próxima sessão mensal do nosso clube de leitura… sim, daqui a duas semanas, calha numa quinta-feira. Desta vez vamos ter um dia que promete… digo-lhe eu! Ora veja lá; joguinho de pólo pela manhã, depois, eu próprio estou a tratar disso, vamos caçar uma adolescente cossaca na mata lá da quinta do Midas… não, a pé não, montados; vamos recorrer a batedores africanos, três ou quatro rapazes do Quénia… sim, diz que os cossacos são danados para o corta mato, por isso é melhor não facilitar... Depois ao almoço, como de costume, enfardamos empadão… sim, empadão... e cavalos, dois ou três... nada disso; escolhemos os que estiverem mais cansados, os outros ficam para o passeio de domingo… isso… Para "arrebater"? Estava a pensar num digestivo tomado na estufa onde vai decorrer a sessão propriamente dita. Acha bem?... É que assim abrimos logo o clube e começamos com a primeira actividade... vilipendiar a porca da esposa do Sísifo… sim, calhou-lhe a ele… veja lá… hahahaha é isso mesmo - gorda e estúpida… hahahaha, mas olhe que conto com o professor para que desta vez seja possível ir mais além… as filhas por exemplo, uma delas pariu um borrego há dias… verdade! Hahahaha … diga... o quê? Não, não acaba aqui não senhor; teremos ainda o Acetes a sodomizar duas lontras adolescentes,três ou quatro páginas de Hayek e um lanche surpresa… isso agora… não posso, não posso; é surpresa professor… hahahaha, o mais que lhe posso adiantar é que vai haver rapazes africanos e um adolescente filipino… e nem mais uma palavra. Pronto, não o vou maçar mais, veja lá então professor, estamos a contar consigo… sim, vamos falando sobre o outro assunto… eu digo, eu digo, o chefe vai gostar de saber… sim claro… então bem-haja professor e uma excelente viagem… sim... depois espero o seu contacto. Um grande abraço… obrigado, é muito gentil, obrigado, obrigado… adeus professor… adeus."
Já agora e antes de desligar, recordo-lhe a próxima sessão mensal do nosso clube de leitura… sim, daqui a duas semanas, calha numa quinta-feira. Desta vez vamos ter um dia que promete… digo-lhe eu! Ora veja lá; joguinho de pólo pela manhã, depois, eu próprio estou a tratar disso, vamos caçar uma adolescente cossaca na mata lá da quinta do Midas… não, a pé não, montados; vamos recorrer a batedores africanos, três ou quatro rapazes do Quénia… sim, diz que os cossacos são danados para o corta mato, por isso é melhor não facilitar... Depois ao almoço, como de costume, enfardamos empadão… sim, empadão... e cavalos, dois ou três... nada disso; escolhemos os que estiverem mais cansados, os outros ficam para o passeio de domingo… isso… Para "arrebater"? Estava a pensar num digestivo tomado na estufa onde vai decorrer a sessão propriamente dita. Acha bem?... É que assim abrimos logo o clube e começamos com a primeira actividade... vilipendiar a porca da esposa do Sísifo… sim, calhou-lhe a ele… veja lá… hahahaha é isso mesmo - gorda e estúpida… hahahaha, mas olhe que conto com o professor para que desta vez seja possível ir mais além… as filhas por exemplo, uma delas pariu um borrego há dias… verdade! Hahahaha … diga... o quê? Não, não acaba aqui não senhor; teremos ainda o Acetes a sodomizar duas lontras adolescentes,três ou quatro páginas de Hayek e um lanche surpresa… isso agora… não posso, não posso; é surpresa professor… hahahaha, o mais que lhe posso adiantar é que vai haver rapazes africanos e um adolescente filipino… e nem mais uma palavra. Pronto, não o vou maçar mais, veja lá então professor, estamos a contar consigo… sim, vamos falando sobre o outro assunto… eu digo, eu digo, o chefe vai gostar de saber… sim claro… então bem-haja professor e uma excelente viagem… sim... depois espero o seu contacto. Um grande abraço… obrigado, é muito gentil, obrigado, obrigado… adeus professor… adeus."
segunda-feira, 23 de novembro de 2009
Oratório de Ascensão ou "Himmelfahrtsoratorium"
Hoje, num bater preciso, apareceu-me um senhor à porta, razoavelmente enfarpelado, fato cinzento, vinco, mas infelizmente de calça curta, escapando-se talvez ao sapato de berloques castanho reluz. Razoavelmente falante para lá do tique no olho esquerdo, num deles, creio eu, ofereceu-me a possibilidade de compra de um “Homicídio de carácter” luxuosamente encaixotado. Não uma “Tentativa de homicídio de carácter”, explicou - edições de bolso de grande produção que não atingem o regozijo de um finíssimo cliente como eu - mas um raríssimo efectivo, garantidamente transitado, comprovadamente capaz de assassinar.
Então e a caixa, o que lá tinha, que notoriamente não cabia num bolso e muito provavelmente me deixaria sem arrumo? Ora foi por aí que a conversa se fez interessante. Lá dentro haveria todo um sistema intrincado de peças capazes de montar um atentado competente à coisa do espírito e que depois de assemblado se tornaria num pequeníssimo insecto, ágil e operador de veneno letal; e tudo perfeitamente explicado no libreto. Sim, libreto! A coisa trazia-o, recortando o móbil na trama espiralada que tão operático dispositivo seria capaz de interpretar certamente. Simples na montagem, como seria de esperar, fácil de operar, a manobra de todos os processos necessários a bem assassinar o carácter do outro tornar-se-ia, mais do que uma necessidade, num prazer.
Uma primeira impressão a reter era a possibilidade de operar em modos diversos, entre os quais, destacados seriam, o modo individual, para operações muito direccionadas e de grande precisão e o modo colectivo, para o qual seria necessário solicitar a versão Premium, que muito jeito tem dado às nações modernas, possibilitando a premente necessidade de condução dos povos às trincheiras do destino.
Mas não era tudo, conseguira o senhor recolher-me a atenção e eu era de momento o próprio corpo da curiosidade. Tinha qualquer coisa de oficial da colónia penitenciária pela forma como apaixonadamente descrevia as funções e atributos do dispositivo, a mim, tornado por magia num explorador estrangeiro surpreendido em casa e entretanto excitado pela imagem desse esqueleto amaldiçoado que era já o meu futuro inimigo; e como tudo isto era digno de contemplar. Pedi-lhe que continuasse, que não ligasse à vizinha do primeiro andar que entretanto passara com o José, um bonobo macho que recorrentemente vestia um vestidinho de princesa; e ele continuou. Montado numa ênfase aguda sugerida pelas mãos, maestro do tropel avassalador de uma manada enlouquecida de adjectivos e assobios asmáticos, revelou-me que tudo funcionava melhor com a oferta de uns quantos Plug-ins que muito melhoravam a performance desta já de si irrepetível maquineta.
Assim, o estojo completo de “Espionagem Política” trazia dentro uma miríade de opções: os manuais de procedimentos, os módulos e devices da mais sofisticada tecnologia, os bigodes postiços e óculos de massa, os equipamentos de escuta - búzios que escutados revelavam mares de intriga, de escândalo -, o compilador binário de soundbytes que depois de devidamente aparafusado à engrenagem principal, estaria capaz de debitar filtros de dúvida e engano sobre a conduta do visado. E isto era evidentemente fundamental, advertiu. Se o visado já sobrevive para além da escancarada manifestação da sua própria imundice, então apenas resta acoplar a paleta de ferramentas de edição para devolver novos gradiantes ao enredo; enfatizar o que já se desconfiava; sublinhar o que já não se tinha em conta. Bem me fez perceber, o senhor, com a calça ainda demasiado curta e os berloques convulsos, que o processo era mais ou menos subtil, mas sempre integrado e persistente.
A certa altura, éramos já dois compinchas, adolescentemente sentados nos degraus da escada - eu, tentado a equilibrar o chinelo com os dedos dos pés, ele, debitando fagulhas de operação entre dentadas assertivas no pão com manteiga que, entretanto, eu lhe propusera. Pensei que me seria impossível não adquirir esta colectânea do assassinato que para meu boquiaberto espasmo, trazia ainda um controlo remoto - nano coisa que projetava a grandes distâncias cordéis invisíveis, concebida especificamente para o telecomando dos Média, dos Midi, dos Wi-Fi, dos HDMI e das frequências do comentário político. Neste sentido, o senhor, um anjo do futuro posto ao meu dispor, alertou-me para a extrema importância de bem gerir e controlar a informação. O que até então vinha sendo feito de uma forma familiar ou com o esforço cúmplice de alguns amigos, tornara-se desperdício do hábito e desta história de repetição informal decaíra a qualidade de um esquema laço que já não satisfazia a necessidade. Era urgente retomar a iniciativa de participação nas máquinas cabalisticas que tudo permeiam e infetam. O eficaz aniquilamento do carácter visado não atinge resolução enquanto ausente dos ecrãs, enquanto anónimo ao desdito do texto impresso ou projectado.
"Vamos então imaginar que não lhe dá muito jeito assassinar o carácter de outrem", disse-me com gravidade. Nesse caso, de que serve a potência deste utensílio precursor do “crime perfeito”, capaz de multiplicar os ecrãs até ao fetiche? Estávamos agora nas margens de um rio de escuridão; e o meu peito oprimido pela possibilidade de não resposta a tamanha interrogação, como se o fantasma do mundo, pudesse num trago, padecer de real e ausentar-se pelo nu; mas depois de fazer uma pausa dramática para acentuar a minha dúvida, acabou por garantir que também não haveria qualquer motivo de preocupação. Investido de uma aura solene, retirou do extenso caixote o kit “Campanha negra”, dotado de um emulador capaz de converter todo o mecanismo num fantástico e poderoso “Estou a ser vítima de homicídio de carácter”, também esta configuração capaz de excelente desempenho com a inclusão de extras tais como um escape com ponteira de competição, um transdutor piezoelétrico de ratereres e um saquinho com senhores muito pequeninos lá dentro, voluntariosamente prontos para tomar parte na conspiração, na laboriosa defesa do proposta vitima.
Que portento da conversibilidade!, esta sequela de caixa de Pandora, mas com menos e mais seguras opções. Um electrodoméstico com vida e para a vida!
Perante o meu ataque de epilepsia, o senhor, que só neste neste momento assegurou que se chamava Dolores, propôs-me um desconto insano se, previsivelmente, optasse pela modalidade de pagamento B23H que estabelecia um programa de crédito de matriz evolucionária - verme parasitário, mas absolutamente benigno, inoculado no genoma dos potenciais geradores de gerações, de forma a forçar a sua própria selecção e assim se perpetuar para lá do horizonte temporal de cada criatura; e somente sofria de um ligeiro acréscimo de juros, este brilhante pacote de pagamento, especificamente dirigido a indivíduos empreendedores, devido à taxa de “donativo partidário”, que sendo uma obrigatoriedade processual, permitiria no entanto, num futuro próximo, mais-valias consideráveis ao nível das comissões comerciais.
Completamente convencido, comovido até, confessei a minha condição insolvente num pedaço de papel amarrotado e com um gesto largo a sinalizar desprendimento coloquei-o, juntamente com um vale desconto até dez cêntimos por litro de combustível, na lapela do senhor, garantindo-lhe com este sinal uma futura compra. Este, com os olhos embargados e projetando faíscas de saliva, despediu-se cordialmente e depois de me fazer chichi no tapete bateu asas e fundiu-se no horizonte.
Então e a caixa, o que lá tinha, que notoriamente não cabia num bolso e muito provavelmente me deixaria sem arrumo? Ora foi por aí que a conversa se fez interessante. Lá dentro haveria todo um sistema intrincado de peças capazes de montar um atentado competente à coisa do espírito e que depois de assemblado se tornaria num pequeníssimo insecto, ágil e operador de veneno letal; e tudo perfeitamente explicado no libreto. Sim, libreto! A coisa trazia-o, recortando o móbil na trama espiralada que tão operático dispositivo seria capaz de interpretar certamente. Simples na montagem, como seria de esperar, fácil de operar, a manobra de todos os processos necessários a bem assassinar o carácter do outro tornar-se-ia, mais do que uma necessidade, num prazer.
Uma primeira impressão a reter era a possibilidade de operar em modos diversos, entre os quais, destacados seriam, o modo individual, para operações muito direccionadas e de grande precisão e o modo colectivo, para o qual seria necessário solicitar a versão Premium, que muito jeito tem dado às nações modernas, possibilitando a premente necessidade de condução dos povos às trincheiras do destino.
Mas não era tudo, conseguira o senhor recolher-me a atenção e eu era de momento o próprio corpo da curiosidade. Tinha qualquer coisa de oficial da colónia penitenciária pela forma como apaixonadamente descrevia as funções e atributos do dispositivo, a mim, tornado por magia num explorador estrangeiro surpreendido em casa e entretanto excitado pela imagem desse esqueleto amaldiçoado que era já o meu futuro inimigo; e como tudo isto era digno de contemplar. Pedi-lhe que continuasse, que não ligasse à vizinha do primeiro andar que entretanto passara com o José, um bonobo macho que recorrentemente vestia um vestidinho de princesa; e ele continuou. Montado numa ênfase aguda sugerida pelas mãos, maestro do tropel avassalador de uma manada enlouquecida de adjectivos e assobios asmáticos, revelou-me que tudo funcionava melhor com a oferta de uns quantos Plug-ins que muito melhoravam a performance desta já de si irrepetível maquineta.
Assim, o estojo completo de “Espionagem Política” trazia dentro uma miríade de opções: os manuais de procedimentos, os módulos e devices da mais sofisticada tecnologia, os bigodes postiços e óculos de massa, os equipamentos de escuta - búzios que escutados revelavam mares de intriga, de escândalo -, o compilador binário de soundbytes que depois de devidamente aparafusado à engrenagem principal, estaria capaz de debitar filtros de dúvida e engano sobre a conduta do visado. E isto era evidentemente fundamental, advertiu. Se o visado já sobrevive para além da escancarada manifestação da sua própria imundice, então apenas resta acoplar a paleta de ferramentas de edição para devolver novos gradiantes ao enredo; enfatizar o que já se desconfiava; sublinhar o que já não se tinha em conta. Bem me fez perceber, o senhor, com a calça ainda demasiado curta e os berloques convulsos, que o processo era mais ou menos subtil, mas sempre integrado e persistente.
A certa altura, éramos já dois compinchas, adolescentemente sentados nos degraus da escada - eu, tentado a equilibrar o chinelo com os dedos dos pés, ele, debitando fagulhas de operação entre dentadas assertivas no pão com manteiga que, entretanto, eu lhe propusera. Pensei que me seria impossível não adquirir esta colectânea do assassinato que para meu boquiaberto espasmo, trazia ainda um controlo remoto - nano coisa que projetava a grandes distâncias cordéis invisíveis, concebida especificamente para o telecomando dos Média, dos Midi, dos Wi-Fi, dos HDMI e das frequências do comentário político. Neste sentido, o senhor, um anjo do futuro posto ao meu dispor, alertou-me para a extrema importância de bem gerir e controlar a informação. O que até então vinha sendo feito de uma forma familiar ou com o esforço cúmplice de alguns amigos, tornara-se desperdício do hábito e desta história de repetição informal decaíra a qualidade de um esquema laço que já não satisfazia a necessidade. Era urgente retomar a iniciativa de participação nas máquinas cabalisticas que tudo permeiam e infetam. O eficaz aniquilamento do carácter visado não atinge resolução enquanto ausente dos ecrãs, enquanto anónimo ao desdito do texto impresso ou projectado.
"Vamos então imaginar que não lhe dá muito jeito assassinar o carácter de outrem", disse-me com gravidade. Nesse caso, de que serve a potência deste utensílio precursor do “crime perfeito”, capaz de multiplicar os ecrãs até ao fetiche? Estávamos agora nas margens de um rio de escuridão; e o meu peito oprimido pela possibilidade de não resposta a tamanha interrogação, como se o fantasma do mundo, pudesse num trago, padecer de real e ausentar-se pelo nu; mas depois de fazer uma pausa dramática para acentuar a minha dúvida, acabou por garantir que também não haveria qualquer motivo de preocupação. Investido de uma aura solene, retirou do extenso caixote o kit “Campanha negra”, dotado de um emulador capaz de converter todo o mecanismo num fantástico e poderoso “Estou a ser vítima de homicídio de carácter”, também esta configuração capaz de excelente desempenho com a inclusão de extras tais como um escape com ponteira de competição, um transdutor piezoelétrico de ratereres e um saquinho com senhores muito pequeninos lá dentro, voluntariosamente prontos para tomar parte na conspiração, na laboriosa defesa do proposta vitima.
Que portento da conversibilidade!, esta sequela de caixa de Pandora, mas com menos e mais seguras opções. Um electrodoméstico com vida e para a vida!
Perante o meu ataque de epilepsia, o senhor, que só neste neste momento assegurou que se chamava Dolores, propôs-me um desconto insano se, previsivelmente, optasse pela modalidade de pagamento B23H que estabelecia um programa de crédito de matriz evolucionária - verme parasitário, mas absolutamente benigno, inoculado no genoma dos potenciais geradores de gerações, de forma a forçar a sua própria selecção e assim se perpetuar para lá do horizonte temporal de cada criatura; e somente sofria de um ligeiro acréscimo de juros, este brilhante pacote de pagamento, especificamente dirigido a indivíduos empreendedores, devido à taxa de “donativo partidário”, que sendo uma obrigatoriedade processual, permitiria no entanto, num futuro próximo, mais-valias consideráveis ao nível das comissões comerciais.
Completamente convencido, comovido até, confessei a minha condição insolvente num pedaço de papel amarrotado e com um gesto largo a sinalizar desprendimento coloquei-o, juntamente com um vale desconto até dez cêntimos por litro de combustível, na lapela do senhor, garantindo-lhe com este sinal uma futura compra. Este, com os olhos embargados e projetando faíscas de saliva, despediu-se cordialmente e depois de me fazer chichi no tapete bateu asas e fundiu-se no horizonte.
terça-feira, 22 de setembro de 2009
Efeméride
Dei por conta que acabei de ultrapassar os cinquenta posts neste meu veludoso estaminé, o que representa uma marca considerável de indolência e sesta.
Para assinalar o evento, nada melhor do que manifestar a minha perplexidade para com esse grande nome da ciática partidária: o excelente Soares, o impreterível avô Soares, grande oráculo da balística política, radioso sol do ocaso socialista, cinturão negro da estocada, druida do sagrado bílis, gárgula das gavetas e paladino da vontade livre da conjectura, proclamou, num estilo ainda muito aceitável e sonoro, que Sócrates é o homem do momento. Eu discordo e acho até tratar-se de uma afirmação que, ou é fanática ou é irresponsável, tendo em conta a subida de forma do Cristiano Ronaldo e o tremendo jeito que o Cavaco tem para tropeçar nos atacadores.
Para assinalar o evento, nada melhor do que manifestar a minha perplexidade para com esse grande nome da ciática partidária: o excelente Soares, o impreterível avô Soares, grande oráculo da balística política, radioso sol do ocaso socialista, cinturão negro da estocada, druida do sagrado bílis, gárgula das gavetas e paladino da vontade livre da conjectura, proclamou, num estilo ainda muito aceitável e sonoro, que Sócrates é o homem do momento. Eu discordo e acho até tratar-se de uma afirmação que, ou é fanática ou é irresponsável, tendo em conta a subida de forma do Cristiano Ronaldo e o tremendo jeito que o Cavaco tem para tropeçar nos atacadores.
sexta-feira, 14 de agosto de 2009
Tarda nada vou de férias
Faço aqui a homenagem ao criador desta foto, tendo em conta que ilustra tudo o que eu tenho para dizer relativamente à pré-campanha eleitoral
.
quinta-feira, 6 de agosto de 2009
Moniz Ongoing
Quando eu era puto, lá no bairro, também se fazia muito disto. Ameaçava-se com uma e dava-se com outra; Tás a ver esta, tas a ver? Eh pá vê lá isso… é esta aqui tas a ver? E toma, dava-se com a outra.
terça-feira, 28 de abril de 2009
As coisas que se andam a passar por ai....
O Primeiro Ministro tem a mania que é bom, com a cena de meter processos a torto e a direito a pessoas que, por inusitada circunstância, são jornalistas, mas é bom que fique conhecedor da existência, algures neste mundo, de um indivíduo que parte quarenta e cinco tampas de sanita em menos de nada.
É por estas e por outras que tu nunca me convenceste ó Sócrates!!!
É por estas e por outras que tu nunca me convenceste ó Sócrates!!!
quinta-feira, 9 de abril de 2009
Uma Santa Páscoa
Enfim, flutuante e proeminente tufo montado em finíssima filigrana de bronze marmóreo, reluzindo estampa de madeixas fantasia, escolhe em cada um de nós, um suspiro.
Mais tarde, um verdadeiro blazer pincelado a reposteiro, devidamente almofadado, às tantas capaz de botões sexualmente simétricos e proponente de lapela acolhedora com lenço lá dentro, soerguido, quase flamejante, alcança para lá do qualitativo.Mais tarde ainda, muito mais tarde, confiantes e resolutos, paramos em terras de luxúria carnal e pelo chamamento de voluptuoso cordame, vislumbramos faíscas do Senhor, embalado por convincente crucifixo, coisa em si de trezentos e setenta e cinco gramas de prata de lei que sabemos governar os recifes profundos do mistério.
Por fim, febris e ofegantes, assim exploradores incrédulos perante inusitadas visões, eis que se abrem para lá da divina Substância, tórridas savanas capilares, como que sedosas promessas levemente sacudidas por fervorosas brisas, receptáculos inebriantes colhendo para seu abrigo os seres, os bichos e as senhoras de meia idade.
Tudo isto me saiu montado num daqueles pequenos ovos da Páscoa com surpresa lá dentro.
sexta-feira, 3 de abril de 2009
A versão dos factos segundo Machete
"Rui Machete explicou aos deputados, no âmbito do inquérito ao caso BPN, que, apesar das qualidades demonstradas por Oliveira e Costa, os seus relatos sobre o banco assentavam num one man show."
Ufa... por momentos cheguei a pensar que me estava a entrar pela janela a Dona Cândida...
segunda-feira, 23 de março de 2009
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